Você mudou de país, não de pergunta
Sobre a solidão específica de ser escutada numa língua que não é a sua
Morar fora4 min de leitura

Tem um horário aqui na Austrália em que o Brasil inteiro ainda está dormindo. Eu já almocei, já trabalhei, já vivi metade do meu dia — e do outro lado ninguém atende. Foi nesse intervalo de silêncio que eu entendi uma coisa que nenhuma mudança de endereço resolve.
Eu tinha atravessado o mundo carregando exatamente as mesmas perguntas. Nenhuma delas foi barrada na entrada. Só mudaram de paisagem.
A gente costuma tratar a mudança de país como uma cirurgia. Corta ali, e o que doía fica para trás. A verdade é mais sem graça: muda o clima, muda o sotaque de quem te atende no mercado, muda a moeda. A pergunta que você faz para si mesma às três da manhã continua idêntica.
Se você saiu depois de um relacionamento que acabou, o luto embarcou junto. Se você saiu porque queria virar outra pessoa, essa outra pessoa desembarcou com o seu nome, o seu jeito de evitar conversas difíceis e a sua vontade antiga de agradar.
O que muda de verdade é quem sobrou para te escutar.
Ser escutada numa língua que não é a sua tem uma solidão própria, que ninguém avisa antes. Você aprende a se explicar em inglês, e explicar não é a mesma coisa que dizer. Falta o meio-tom. Falta a ironia. Falta a piada que só funciona em português.
Então você responde "I'm fine", porque "estou meio esquisita desde terça e não sei bem por quê" exigiria palavras que você ainda não tem nessa língua. Aos poucos, você vira uma versão resumida de si mesma. As pessoas daqui te conhecem por essa versão. É gentil, é funcional, e não é você.
Eu atravessei o mundo carregando as mesmas perguntas. Elas passaram na alfândega comigo — não pesaram na balança, não pediram visto.
— Cris Astrall
O que isso desperta em você?
E falta gente. Não gente qualquer: testemunhas. A amiga que te interrompia no meio da frase porque já sabia onde ia dar. A prima que dizia "de novo isso?". Quem te conhece há vinte anos não te dá conselho — te dá contexto. Sem contexto, a gente repete sem perceber que está repetindo.
Morar longe não interrompe o que se move por dentro. Às vezes só tira de cena as testemunhas que apontariam para quem está no volante.
É por isso que eu insisto que o tarô, do jeito que eu trabalho, não é sobre o que vai acontecer. As cartas não sabem do seu visto, da sua mãe, do seu currículo que ninguém reconhece aqui. As cartas mostram possibilidades — e, sobretudo, mostram você olhando para elas.
O que acontece na consulta é mais simples e mais raro do que parece: alguém te escuta na sua língua, sem que você precise traduzir a dor antes de contar. Às vezes a imagem da carta faz o serviço que a tradução impede, e você escuta o que vinha dizendo sem se ouvir. Às vezes não acontece nada disso, e a conversa é só uma hora em português — o que já não é pouco.
Atendo on-line, por videochamada, em português. Isso não é um detalhe logístico — é metade do trabalho.
Eu não estou dizendo que você errou ao ir embora. Mudar de país pode ter sido a coisa mais honesta que você fez. Só não peça à mudança um trabalho que ela não faz. Ela troca o cenário. A pergunta continua sendo sua — e continua esperando.
Se em algum momento você quiser olhar para ela em voz alta, na sua língua, a porta está aberta. Sem pressa.
Qual é a pergunta que atravessou o oceano com você — e o que ela desperta em você agora?
Se isso mexeu com alguma coisa, a gente conversa.
As sessões são on-line ou presenciais, e começam sempre pela escuta.
A conversa
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