O que as cartas fazem (e o que não)
Não leio o futuro. Leio o que já está em você — e a escuta vem antes das cartas.
Tarô terapêutico4 min de leitura

A pergunta quase sempre chega nos primeiros minutos da chamada, meio de lado, como quem já pede desculpas antes de perguntar: "Cris, ele volta?" Ou: "eu consigo esse trabalho?" Ou, mais direto: "quando?"
Eu não corrijo ninguém por isso. Faz sentido chegar assim. A gente aprendeu que tarô é adivinhação, e quando a vida aperta, a primeira coisa que a gente quer é uma data — qualquer coisa que interrompa a espera. Perguntar pelo futuro costuma ser o único jeito que sobra de dizer que o presente está pesado demais.
Só que eu não trabalho com previsão. E prefiro dizer isso logo, não porque você errou ao perguntar, mas porque tem uma coisa melhor do lado de cá.
Começo pelo que as cartas não fazem, para tirar esse peso da mesa. Elas não dizem o que vai acontecer. Não marcam data, não apontam culpado, não decidem por você se fica ou se vai. Não substituem psicoterapia, acompanhamento médico ou medicação. Se, na nossa conversa, aparecer algo que peça cuidado de saúde, eu digo isso com franqueza e sugiro que você procure um profissional da área — quem avalia isso não sou eu nesta cadeira. E não existe carta que garanta resultado.
O que elas fazem cabe numa imagem simples: são um espelho. O espelho não inventa o seu rosto, devolve o que já está ali. E é um dos jeitos de ver a própria cara — porque, sozinha, você enxerga o mundo inteiro menos você.
Espelho também não obedece. Ele não mostra o que você gostaria de ver. Às vezes a carta que cai é exatamente a que você evitou a semana inteira: o cansaço que você chama de "fase", a raiva que você chama de paciência, o adiamento que você chama de bom senso.
Jung escreveu, no Aion: "A regra psicológica diz que, quando uma situação interior não é tornada consciente, ela acontece fora, como destino." É disso que se trata. Quando a gente não enxerga o que se move por dentro, a repetição parece sina. Nomeada, ela pode voltar a ser escolha. Escolha dá trabalho, e nem sempre alivia de imediato — mas é sua.
As cartas não dizem o que vai acontecer. Ajudam a nomear o que talvez já esteja em você — quem reconhece é você.
— Cris Astrall
O que isso desperta em você?
Por isso a escuta vem antes da tiragem. Eu não começo embaralhando. Começo perguntando o que te trouxe aqui hoje, e escuto de verdade: as palavras que você usa, as que você troca no meio da frase, o assunto que reaparece três vezes "sem querer", o ponto em que a voz muda de altura.
Sem essa parte, qualquer carta vira frase genérica — bonita, redonda, serve para qualquer pessoa e não serve para ninguém. Depois de escutar, a mesma carta ganha endereço. Ela deixa de falar sobre perdas em geral e passa a falar sobre aquilo que você acabou de contar e ainda não tinha ouvido de fora.
É um trabalho de duas. Eu não sou dona da sua leitura. As cartas mostram possibilidades; quem reconhece qual é a sua é você. Muita coisa importante acontece no silêncio depois que eu falo, quando alguma coisa encaixa e você diz "nossa, é isso".
Também já cheguei querendo uma data. Queria que alguém me dissesse o mês, o dia, o final. Levei tempo para perceber que a data que eu pedia era só uma forma de não olhar para a pergunta que estava embaixo: por que eu continuo aqui?
Quando a previsão sai de cena, sobra o que interessa. O que está vivo em você agora, o que você vem carregando sem nomear, e o que ainda pode ser feito com isso. É a direção do trabalho: mente, emoções e espiritualidade sendo olhadas juntas, em vez de tratadas como assuntos separados.
E se você entrar na chamada com aquela pergunta na ponta da língua — quando, com quem, se volta —, pode trazer. A gente começa por ela. Costuma ser um bom começo de conversa — só não é a conversa inteira.
Se a resposta que você procura não estivesse no futuro, mas em algo que você já sabe e ainda não disse em voz alta, o que seria?
Se isso mexeu com alguma coisa, a gente conversa.
As sessões são on-line ou presenciais, e começam sempre pela escuta.
A conversa
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