Quando o incômodo ainda não virou pergunta
Você sente que algo não está no lugar e não consegue apontar o quê. Isso já basta.
Autoconhecimento3 min de leitura

Você abre a agenda no domingo à noite, olha para o horário vago de quarta e fecha o aplicativo. Não é falta de tempo. É que você não sabe o que diria se a conversa começasse.
Tem um tipo de incômodo que não vem com legenda. Não é uma crise. Não tem um episódio para contar, nem uma data em que começou. É mais como uma nota desafinada tocando embaixo de tudo o que está dando certo.
E o que está dando certo continua dando certo. O trabalho anda. As contas fecham. As pessoas ao redor gostam de você. Talvez seja exatamente isso que confunde: não há nada de errado para apontar com o dedo.
Aí você faz uma triagem sozinha. Compara o seu desconforto com o desconforto dos outros, mede o seu contra o que você imagina que seja grave, e conclui que o seu não paga a entrada. Quem sou eu para ocupar uma hora de alguém com um mal-estar sem nome?
A régua que você está usando é a régua do concreto. Só vale se tiver nome, causa, começo. Só vale se couber numa frase curta, dessas que entram em formulário. Mas o inconsciente não fala em formulário. Ele fala em repetição, em cansaço fora de hora, em irritação com quem não fez nada, em vontade de sumir numa tarde de domingo.
E se você mora longe de casa, acrescente mais uma camada a isso. Fica difícil saber se o que você sente é saudade, desgaste de adaptação, ou alguma coisa que já estava aí antes de você embarcar. Tudo se mistura no mesmo caldo, e a falta de nome fica ainda mais confortável.
No meu trabalho, quase ninguém chega com a pergunta pronta. Chega com um assunto: o relacionamento, a mudança de país, a mãe, o emprego que não cabe mais. O assunto é a porta. A pergunta é o que está atrás dela, e quase nunca é o que estava escrito na porta.
O que não vira pergunta continua agindo. Só que sem a sua participação.
— Cris Astrall
O que isso desperta em você?
O que costuma acontecer é isto: você começa falando de uma coisa e, alguns minutos depois, ouve a própria voz mudar de assunto. Muda o ritmo. Aparece um detalhe que você não tinha planejado contar. É ali, em geral, que a pergunta se forma. No meio da frase, não antes dela.
Não estou prometendo que isso vai acontecer com você, nem que acontece logo no primeiro encontro. Estou descrevendo o que vejo acontecer. Às vezes a conversa termina e o que sobra é só um incômodo um pouco mais nítido do que era no começo. Isso também é trabalho feito.
As cartas entram aí, e não como profecia. As cartas mostram possibilidades. Uma imagem na mesa faz o que a pergunta direta não faz: dá forma a algo que ainda não tinha palavra. Você reconhece ou não reconhece. Quando reconhece, muita gente descreve uma reação que chega antes de qualquer explicação. É esse reconhecimento que interessa, não a carta.
Jung dizia que a gente só enxerga o inconsciente pelos seus efeitos — pelo que insiste, pelo que retorna. Não leio isso como ameaça. Leio como convite. O que não vira pergunta continua agindo, só que sem a sua participação.
Adiar, nesse ponto, não é preguiça. É uma forma de proteção. Enquanto o incômodo não tem nome, ele também não cobra nada de você, não pede mudança, não desarruma o que está de pé. É um acordo silencioso, e ele tem um custo — que só você pode medir, no seu tempo.
Vale dizer com todas as letras: esse é um trabalho de escuta e de leitura simbólica, e ele não ocupa o lugar da psicoterapia nem de acompanhamento médico. Caminha ao lado, quando faz sentido para você.
Se você chegar desorganizada, tudo bem. Não é preciso trazer o problema formatado, resumido, com título e três tópicos. Trazer o que está confuso, do jeito confuso que está, já é material suficiente para uma conversa começar.
Se o seu incômodo não precisasse se explicar para ter direito de existir, o que ele diria primeiro?
Se isso mexeu com alguma coisa, a gente conversa.
As sessões são on-line ou presenciais, e começam sempre pela escuta.
A conversa
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